
A programação da tarde do primeiro dia (16/3) do 2º Workshop Promares – Mar Circular: Construindo Soluções foi marcada pelo painel “Academia Promares: da bancada para a prática: uma abordagem sobre economia circular e suas repercussões”, que reuniu pesquisadores e pesquisadoras de universidades brasileiras e estrangeiras para discutir desafios e experiências voltadas à gestão de resíduos sólidos, à economia circular e ao enfrentamento da poluição por plásticos.
O evento ocorre no auditório da Associação dos Magistrados do Maranhão (AMMA), em São Luís, e integra as reuniões de trabalho do projeto Promares, iniciativa que reúne instituições públicas, universidades e parceiros internacionais para desenvolver soluções voltadas à redução da poluição marinha e ao fortalecimento de políticas públicas ambientais.
Durante o painel, especialistas compartilharam experiências de pesquisa, projetos de extensão e iniciativas voltadas à gestão sustentável de resíduos, destacando a importância da cooperação entre universidades, poder público e sociedade.

A professora Ilka Serra, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), destacou o papel das universidades na disseminação do conhecimento e na promoção da educação ambiental. Segundo ela, a instituição possui forte presença territorial no estado, com atuação em diversos municípios e projetos voltados a comunidades vulneráveis, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos. “Quando fazemos educação, também estamos fazendo pesquisa e formando pessoas. É por meio dessa integração que conseguimos promover capacitação e gerar transformação social”, afirmou.
A professora Ticiana Mesquita, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), ressaltou que as universidades têm papel fundamental na formação de profissionais e na produção de conhecimento voltado à gestão de resíduos.
Ela destacou pesquisas em andamento no Rio das Contas, na cidade de Jequié (BA), que buscam analisar o impacto da geração de resíduos sólidos em rios que deságuam no mar e contribuir para o desenvolvimento de soluções baseadas na economia circular.
Já o professor Neyson Mendonça, da Universidade Federal do Pará (UFPA), destacou os desafios relacionados ao encerramento de aterros sanitários e à busca por novas áreas para disposição adequada de resíduos na região amazônica. Para ele, o processo exige planejamento técnico, participação de diferentes instituições e diálogo com as comunidades locais.

O professor Kai Münnich, da Universidade Técnica de Braunschweig, na Alemanha, destacou que o fechamento de lixões e a implantação de novos sistemas de gestão de resíduos são processos que precisam ocorrer de forma planejada e integrada. Segundo ele, encerrar um lixão exige avaliação técnica detalhada, com análise de riscos ambientais como presença de gases, chorume e problemas de estabilidade do solo. “Fechar um lixão não significa simplesmente abandonar o local. É preciso investigar os riscos e definir soluções adequadas para cada situação”, explicou.
Para o pesquisador, o processo também representa uma oportunidade de repensar o sistema de gestão de resíduos, com ações voltadas à reciclagem, redução da geração de lixo e criação de novas oportunidades de trabalho.
MONITORAMENTO DE RESÍDUOS E INOVAÇÃO
O pesquisador Niklas Eickelberg, também da Universidade Técnica de Braunschweig, apresentou a metodologia que será utilizada para monitorar o fluxo de macroplásticos no Rio das Contas.
O estudo prevê a instalação de três pontos de monitoramento ao longo do rio, antes, durante e após a área urbana, permitindo medir a quantidade de resíduos que entram e saem da cidade e avaliar a eficácia das medidas de economia circular adotadas na região.
Outro destaque foi a apresentação da professora Angélica Di Maio, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que falou sobre projetos voltados à criação de startups e iniciativas de geração de renda a partir do reaproveitamento de resíduos em comunidades.
Já o professor André Brasil, da Universidade de Brasília (UnB), falou sobre a proposta de criação de um portal digital do projeto Promares, que reunirá pesquisas, dados e materiais educativos produzidos pelas instituições participantes.
POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO DE RESÍDUOS
O professor Armando Borges, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), abordou a experiência de revisão do Plano Estadual de Resíduos Sólidos de Santa Catarina, elaborado com a participação de dez universidades.
Entre as inovações do plano está a inclusão de um capítulo específico sobre lixo no mar, além da análise de diferentes categorias de resíduos e estratégias para fortalecer o planejamento ambiental.
Na mesma linha, o professor Ronaldo Stefanutti, da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou a importância da logística reversa como mecanismo para ampliar a reciclagem e reduzir o descarte inadequado de resíduos plásticos.
DESAFIOS REGIONAIS
O professor Aurélio Picanço, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), ressaltou que a gestão de resíduos no Brasil enfrenta desafios estruturais, especialmente em municípios menores, que muitas vezes não possuem equipe técnica ou recursos financeiros suficientes para implementar políticas públicas.
Segundo ele, as soluções precisam considerar as diferenças regionais do país, já que não existe um modelo único capaz de atender todas as realidades.
Encerrando o debate, o professor José Fernando Jucá, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), falou sobre as experiências do Programa de Combate ao Lixo no Mar em Pernambuco, que realizou diagnóstico detalhado da gestão de resíduos em municípios costeiros do estado.
Entre as iniciativas, ele citou uma ação realizada no município de Rio Formoso, onde pescadores foram mobilizados para retirar resíduos plásticos de um rio da região. Mais de duas toneladas de lixo foram recolhidas e expostas temporariamente na praça central da cidade como forma de conscientizar moradores e turistas.
POLÍTICAS PÚBLICAS
A programação também contou com o painel “Políticas Públicas: implementação de boas práticas como um mecanismo de transformação social”, que reuniu representantes de órgãos públicos e gestores/as para discutir estratégias de integração entre poder público, academia e sociedade na implementação de ações voltadas à sustentabilidade e à gestão de resíduos.
Participaram da mesa o secretário-executivo adjunto do Ministério das Cidades, Jamaci Avelino; a secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia, Diana Mello; o representante da Secretaria de Educação da Bahia, Fábio Fernandes; o secretário adjunto da Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão, Diego Rissi; o secretário municipal de Meio Ambiente de Barreirinhas, Ronald Augusto; o secretário de Meio Ambiente da Bahia, Tiago Santana; a coordenadora de Tecnologia Social e Economia Circular da Secretaria de Meio Ambiente do Pará, Adriana Nunes; o representante da Secretaria de Administração Penitenciária do Maranhão, Rafael Velasco; o representante da Secretaria de Segurança Prisional do Pará, Belchior Machado; e a representante do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (INEMA), Rita Braga.
Durante o painel, os/as participantes destacaram a importância de fortalecer a cooperação entre instituições públicas, universidades e centros de pesquisa para transformar conhecimento científico em políticas públicas e ações concretas.
Por: Agência TJMA de Notícias